“As mulheres no mundo todo estão dizendo ‘Chega, a gente não vai voltar para trás'”

Nadine Gasman é a representante da ONU Mulheres no Brasil desde 2012 e conhece as mazelas brasileiras. Médica, 59 anos, com nacionalidade francesa e mexicana, ela critica o desrespeito dos partidos às regras para aumentar o número de mulheres na política.

Valor: A senhora acha que as eleições de 2018 marcarão uma virada na relação mulher e política?

Nadine Gasman: O Brasil está numa situação complexa. É muito difícil explicar por que o teto de 10% na participação das mulheres parece ser quase impossível de ultrapassar aqui. As cotas, que têm funcionado em outros países, os 5% do fundo partidário para a formação política delas e o tempo na TV não têm resolvido o problema. Na prática partidária, essa regra não tem sido respeitada.
Valor: A senhora percebe um novo encantamento das mulheres pela política?

Nadine: As mulheres estão mobilizadas na defesa dos valores democráticos, essa é a história das mulheres no Brasil e no mundo. O movimento feminista tem se engajado na política formal, e isso é um reflexo do que a sociedade em 2018 precisa. Uma parte grande das mulheres tem respondido ao descrédito da política com a participação política, e isso dá uma grande possibilidade de mudanças para este ciclo eleitoral e os próximos. Mas o sistema político bota obstáculos muito concretos para não deixar que essas novas propostas floresçam, e o caso da [vereadora] Marielle [Franco] é um dos mais preocupantes.

Valor: O assassinato de Marielle Franco atemoriza ou estimula as mulheres que querem entrar na política?

Nadine: A leitura do que está acontecendo no Brasil e fora é que existem muitas Marielles. As pessoas desse campo de luta estão indignadas, mas não estão atemorizadas. Estão com muita vontade de entrar na política e apoiar mulheres para entrar na política. Tenho falado muito com pessoas de esquerda, de direita e todas citam Marielle para denunciar a violência política. Ainda estamos esperando as investigações, mas já há muitas evidências para nos permitir dizer que o Brasil não pode tomar esse caminho. A Marielle deixou uma semente muito forte da sua visão e do seu posicionamento.

Valor: A ONU Mulheres vai apoiar candidaturas de alguma maneira?

Nadine: A ONU Mulheres não pode apoiar candidatas específicas, mas apoiamos a mobilização dos movimentos feministas: existem propostas muito importantes nos diferentes partidos políticos, e queremos chamar as pessoas a votarem em mulheres. E ainda apoiamos o Fórum de Mulheres dos Partidos Políticos, que está se organizando.

Valor: A ONU Mulheres vai reeditar o Cidades 50/50 que lançou em 2016?

Nadine: Sim, vamos lançar uma plataforma e chamar os candidatos – mulheres e homens – a se manifestarem publicamente sobre a igualdade. É um instrumento para os eleitores terem informações sobre a posição de seus candidatos sobre a igualdade. Na última eleição, lançamos essa plataforma em cima da hora e não conseguimos ter a maioria dos candidatos – eles eram meio milhão, um número enorme. Agora vamos começar mais cedo, a proposta é ter um observatório da sociedade civil.

Valor: O Brasil vive uma primavera feminista, mas também um aumento do conservadorismo. Como vê isso?

Nadine: A gente sabe que está num momento histórico em que a nossa luta – a minha, a sua e a de muita gente – tem mudado a sociedade de uma maneira muito importante. Tem uma reação internacional muito articulada para parar o movimento em busca de uma sociedade mais justa, igualitária e inclusiva. O patriarcado não é um sistema simples, estamos vendo um alinhamento das forças mais conservadores para resistir às mudanças. São transformações que têm a ver com o poder na sociedade, nas famílias, nas comunidades, no trabalho, nos partidos. Estamos em um momento histórico muito complexo, mas estou otimista: temos instrumentos internacionais e acordos entre os países-membros da ONU que refletem a sociedade do século XXI, com uma pauta civilizatória muito importante. O lema é não deixar ninguém para trás.

Valor: A participação dos movimentos sociais tem sido importante?

Nadine: Sim, as mulheres em todo o mundo estão dizendo ‘Chega, a gente não vai voltar para trás’. Milhares de jovens nos EUA estão dizendo ‘Chega, vocês não vão continuar nos matando’; no Brasil tem o movimento das negras. É um momento histórico de disputa de poder real e, por isso, é muito importante falar da pauta das mulheres, uma pauta civilizatória de igualdade, de não violência, de desenvolvimento sustentável. Esta é uma visão com a qual a maioria da humanidade concorda.

Reportagem VALOR ECONÔMICO

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